RACISMO ESTRUTURAL: Cientistas negras são as mais afetadas na atividade acadêmica durante a pandemia

Apenas 46,5% das mulheres negras, que são mães, conseguiram submeter trabalhos dentro do prazo neste período de isolamento, contra 65,3% dos homens

Levantamento pioneiro do Movimento ‘Parent in Science’ indica que gênero, raça e maternidade ainda são fatores que contribuem para a sub-representação feminina na ciência

Redação: Clara Assunção

São Paulo – Nem metade das mulheres brasileiras pesquisadoras com filhos consegue submeter trabalhos científicos durante a pandemia do novo coronavírus. Levantamento inédito realizado pelo Movimento Parent in Science indica que 65,3% dos docentes homens, com filhos, produziu artigos científicos no isolamento social, ante apenas 47,4% das mulheres que são mães. Recém-divulgado, o estudo não deixa dúvidas de que, sob a perspectiva de gênero e maternidade, a pandemia de covid-19 causa impactos também na produção científica. 

Mas, para além desses fatores, o estudo também revela que a maior queda na produção acadêmica também tem cor: a das mulheres pesquisadoras negras. Apenas 46,5% delas que são mães conseguiram submeter trabalhos dentro do prazo neste período. Um percentual ainda menor do que o da soma com as mães cientistas brancas. E, mesmo sem filhos, a submissão de artigos científicos chega somente a 48,7%. Enquanto entre as mulheres brancas, esse percentual sobe para 58,9%. 

No geral, no entanto, o dado entre as mulheres ainda está bem abaixo dos docentes negros (67,9%). E, principalmente, dos homens brancos. Estes lideram o número de submissões de trabalhos, com 77,3%. Um resultado que só confirma que “as mulheres são sempre as mais prejudicadas, especialmente as mulheres negras”, como destaca a professora Zélia Ludwig, do Departamento de Física da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) em entrevista ao programa Conexões, da Rádio UFMG Educativa

Desigualdade de gênero na ciência

Coordenadora do Centro de Pesquisa, Ensino e Inovação em Materiais (Cepem-UFJF), Zélia é uma das pesquisadoras que assinam o estudo Produtividade acadêmica durante a pandemia: efeitos de gênero, raça e parentalidade. Realizado por meio de questionário eletrônico, quase 15 mil cientistas em pós-graduação, pós-doutorando e docentes/pesquisadores responderam ao levantamento entre abril e maio. Entre eles, 3.629 docentes pesquisadores de instituições de ensino superior apenas do Brasil. O intuito agora é orientar as políticas públicas em favorecimento do trabalho acadêmico das mulheres, principalmente as mulheres negras. 

“A pandemia só escancarou mais os efeitos da desigualdade nas mulheres negras. Não só sobre as mulheres negras na academia, mas na sociedade, de forma geral”, observa a professora. 

Em 2016, o Censo da Educação Superior identificou que as mulheres pretas e pardas com doutorado não chegam a 3% do total de docentes do país. E, de acordo com Zélia, somente 7% das mulheres negras têm a chamada bolsa de produtividade. “Isso tem origem histórica no racismo estrutural. As mulheres negras, em sua maioria, estão fora da academia por falta de oportunidade e de acesso a melhores condições de ensino. Há uma série de fatores que vão sendo impostos à mulher no decorrer da sua vida. E eles acabam contribuindo para que tenha essa baixa representatividade de mulheres negras na ciência”, ressalta a Rádio Educativa UFMG

Métricas injustas

Na prática, é a produção de artigos que também medirá as oportunidades de um cientista, como bolsas, recursos e aprovação de projetos. Uma métrica injusta, como pondera a professora da UFJF, por ser insuficiente em perceber as desigualdades que sobrecarregam mais as mulheres. “A régua que vai medir a produtividade do homem é a mesma que vai medir a produtividade da mulher com filho e da mulher negra. Não tem nada que favoreça isso e q incentive”, critica. 

O levantamento também constata maiores dificuldades para as mulheres cientistas trabalharem remotamente. Entre as pós-doutorandas, 13,9% que responderam conseguir trabalhar de casa, não chegam à metade do índice dos homens (27,9). Na pós-graduação, 83,4% das mulheres confirmaram que a pandemia tem impacto no andamento da dissertação e tese, ante 77,5% dos homens. 

Para o Movimento Parent in Science, os resultados evidenciam que é preciso aumentar o prazo para submissão em editais de fomento e flexibilizar o prazo para prestação de contas e relatórios de projetos. Os pesquisadores também defendem que sejam elaborados editais específicos aos grupos mais atingidos, evitando assim um aumento da disparidade de gênero e raça. E cobram o aumento do tempo de análise do currículo para mulheres com filhos em editais de financiamentos e concursos. 

Fonte: redebrasilatual.com.br