Teresina tem mais de 800 terreiros

Raíssa Morais

Aplicativo mostra que a capital tem um terreiro para cada mil habitantes, mas o Piauí aparece como um dos estados mais intolerantes do Brasil, mesmo com tantos centros para a prática do candomblé e da umbanda

Por Lucrécio Arrais / meionorte.com

Segundo levantamento realizado pelo aplicativo “Eu Tenho Fé”, desenvolvido pela Prefeitura Municipal de Teresina, para combater a intolerância religiosa, são mais de 800 terreiros na capital. Tendo em vista que são 800 mil habitantes no município, existe praticamente um terreiro para cada mil habitantes. Ao mesmo tempo, o Piauí aparece como um dos estados mais intolerantes do Brasil, mesmo com tantos centros para a prática do candomblé e da umbanda.

Praça dos Orixás: valorização das religiões de matrizes africanas | Crédito: Raíssa Morais

Paralelo a isso, o Piauí será o pioneiro nordestino na comemoração dos 31 anos da Fundação Cultural Palmares. “Vai ocorrer no Piauí a 7ª edição do Cultura Negra Estaiada na Ponte. O evento, oriundo do movimento de matriz africana, reúne vários terreiros da capital, interior e convidados. A diferença este ano é que teremos uma atração nacional, a Leci Brandão. Também vamos comemorar os 31 anos da Fundação Cultural Palmares”, conta Pai Rondinele de Oxum.

“Nunca tivemos essa celebração no Nordeste, e será no Piauí. Vão participar vários representantes, artistas nacionais e convidados. Será um dia de atividades, com sessão solene proposta pela deputada Flora Izabel,     pelos 31 anos. Também acontecerá uma roda de diálogo, onde vamos discutir o legado da Fundação e como faremos diante deste governo”, acrescenta o religioso.

Pai Rondinele de Oxum | Crédito: Raíssa Morais

Rondinele de Oxum afirma que há um grande vácuo por parte do Governo Federal em manter políticas públicas. “Está sendo muito difícil dialogar. Há um retrocesso enorme para políticas públicas de igualdade racial. Apesar de ter permanecido a Secretaria de Política de Promoção da Igualdade Racial, percebemos que ao longo desses 15 e 16 anos avançamos muito, mas agora estamos retrocedendo”, considera.

Piauí é o quarto Estado mais violento com religiões africanas

“Os projetos e ações que tinham um planejamento feito em nível nacional com todos os movimentos foram de água abaixo”, dispara Pai Rondinele de Oxum. “Foi conquistada muita coisa, como projetos e ações. Coisa que não existe mais, porque o governo decidiu descontinuá-los. Por exemplo, o projeto de combate à intolerância religiosa. Estamos lutando com esse governo para fazer uma campanha neste sentido, como o racismo religioso. A Universal, todo dia, incita o ódio para religiões de matriz africana. O resultado? Hoje o Piauí é o quarto Estado que mais violenta comunidades tradicionais de terreiros”, revela Pai Rondinele.

Crédito: Raíssa Morais

Os exemplos da intolerância sempre aparecem na mídia. “Aqui temos terreiros que foram queimados, depredados e pais de santo que foram assassinados. Como lidar com esta situação? O Rio de Janeiro está na frente no dado negativo. Todo dia um terreiro é violentado ou expulso das favelas, por estarem concentrados em periferias”, diagnosticou o pai de santo.

Outro exemplo clássico da intolerância religiosa do teresinense é a imagem de Iemanjá, a Rainha do Mar. “Todo ano a imagem de Iemanjá, na Avenida Marechal Castelo Branco, é depredada. Nossa ideia é que ela volte para o local original, próximo ao Troca-Troca. Parece que querem escondê-la colocando na Marechal. O local dela é no cais. Na década de 60 a 80 ela ficava ali. Como passam mais pessoas ali, acreditamos que ela seria mais protegida e tenhamos um espaço para ser preservado”, explica Rondinele de Oxum. 

A necessidade de certificar o poderio cultural e religioso da imagem é uma das formas apontadas para protegê-la. “É um patrimônio histórico, cultural e religioso. Precisa tombar. Não adianta ficar reformando o tempo todo. Tem a questão da história, porque ali as mulheres lavavam a roupa. Vamos comprar essa briga para transportá-la para o lugar de origem”, pontua Rondinele. (L.A.)

Crédito: Raíssa Morais

Praticantes lutam contra preconceito

Falta diálogo para combater o preconceito. “O que você repassa para os filhos e amigos, melhor. É preciso conversar e discutir, com uma boa argumentação, que é preciso respeitar as religiões. Nosso evento vem crescendo. Antes era somente um desfile com show, agora é algo maior. As pessoas estão curiosas com nossa luta. Estou pesquisando sobre povos do campo e discutimos isso em sala de aula, e percebemos que muitas comunidades só têm uma igreja evangélica”, afirma Fátima Guimarães, pesquisadora e produtora executiva.

Pesquisadora Fátima Guimarães | Crédito: Raíssa Morais

São questões que estão arraigadas no preconceito. “Tenho uma filha de santo, por exemplo, que estava sendo iniciada e usava apenas branco, colares de conta e pano na cabeça. Ela chegou ao médico e ele mandou ela tirar os colares. Ela respondeu que o problema era no pé, não no pescoço. Percebe como ainda há, sim, um preconceito institucional?”, questiona Rondinele de Oxum.

A evasão escolar entre os praticantes também é muito grande. “Eles deixam de ir para a sala de aula por conta do preconceito. Eles chegam na sala de aula e são apelidados de macumbeiros, filhos do demônio, etc. Além disso, os idosos também são afetados. O preconceito faz com que essas pessoas não procurem auxílio médico. Existem senhoras de 70 anos que nunca fizeram um exame ginecológico”, finaliza o pai de santo. (L.A.)