Laurentino Gomes lança livro sobre a história da escravidão no Brasil

Por Euler de França Belém  / Jornal Opcão

O tráfico de escravos era uma atividade globalizada, que envolveu Portugal, Inglaterra e Suíça. Dom Henrique foi um dos primeiros grandes traficantes

Há basicamente três tipos de leitores de livros de história. Há os que, ao perceberem a primeira nota de rodapé — ou o palavreado do tipo “no bojo de” ou “em última instância” —, saem correndo da livraria à procura de uma farmácia. Tomam um medicamento para dor de cabeça e só voltam à livraria uma semana depois. Se voltar. Há os que amam livros de história com copiosas notas de rodapé — mesmo quando, aliás, não estão no rodapé, e sim no final da obra, o que dificulta a fluidez da leitura. Tais leitores têm quase sempre formação acadêmica. Há, por sim, os leitores que, mesmo não apreciando notas de rodapé, citações infindáveis e linguagem enviesada, não deixam de ler os textos a respeito de assuntos que apreciam.

Dois jornalistas patropis, Eduardo “Peninha” Bueno e Laurentino Gomes escrevem para o povão. Alto lá: não para o povão semialfabetizado, e sim para o povão de certa cultura, mas que não tem ânimo de ler tratados acadêmicos, sobretudo aqueles que cujo foco não é o assunto em si, mas teorias às vezes tão mirabolantes que mais parecem ficções.

Laurentino Gomes não é um scholar, mas pesquisa como se fosse e seus livros têm linguagem de gente — qualquer um, minimamente instruído, pode lê-los. Pode-se dizer que se tratará de uma leitura tão prazerosa quanto proveitosa. Há certa superficialidade e até uma interpretação excessiva — próxima do anacronismo — das fontes? É possível. Mas o jornalista consegue traduzir, para a língua dos mortais, fatos que, não fosse sua pena objetiva, continuariam ignorados pelo leitor comunzão.

Depois de ter escarafunchado a chegada da Corte Portuguesa ao Brasil, em 1808 — trata-se de uma espécie de “primeira” Independência —, a Independência do país, em 1822, e como os brasileiros se livraram da Monarquia, em 1889, Laurentino Gomes explora o tema da escravidão — que o escritor americano William Faulkner, autor dos seminais “Luz em Agosto” e “Absalão, Absalão”, chama de a “maldição” do Sul dos Estados Unidos. A escravidão é, também, a nossa maldição (por isso as cotas compensatórias do governo são necessárias). Uma maldição que nosso “jeitinho” busca não esconder, e sim suavizar, quiçá para conviver, ou para evitar discutir nossas origens e miscigenações. Veja-se o meu caso: há quem me considere branco, há quem me considere pardo. Bisneto de uma mulher negra, Frutuosa, a Tuosa, o que sou? Um mestiço de negros e árabes brancos. Uma mistura, sim, mas sei que, no fundo, também sou negro, mas nunca fui apontado como tal. Numa visita a uma loja que vende produtos do Barcelona, em Barcelona, e ao shopping do Chiado (loja da Fnac), em Lisboa, em 2010, me perguntaram, de cara, se eu era árabe — quiçá os vendedores ficaram assustados, especialmente porque eu carregava uma bolsa… com livros e CDs. Não era… uma bomba.

Laurentino Gomes: autor de livros de vulgarização da história do Brasil

Durante seis anos, Laurentino Gomes pesquisou o tema da escravidão — mais inesgotável do que Jesus Cristo, por certo. Ele esteve em 12 países, de três continentes, e o primeiro livro da trilogia (que será concluída em 2022), “Escravidão — Do Primeiro Leilão de Cativos em Portugal Até a Morte de Zumbi dos Palmares” (Globo Livros, 504 páginas), cobrindo 250 anos, chega às livrarias brasileiras no dia 23 deste mês.

O primeiro leilão de cativos, informa a editora, ocorreu “na manhã de 8 de agosto de 1444” — há 575 anos —, quando o Brasil ainda não havia sido descoberto pelos portugueses. Sinopse da Globo Livros frisa que o infante Dom Henrique, “patrono das grandes navegações e descobrimentos do século 15”, foi também “um dos primeiros grandes traficantes de escravos no Atlântico”.

A tráfico de escravos era uma atividade globalizada, com o envolvimento de várias nações, como Portugal, Inglaterra, Suíça, além de parte do continente africano.