24 de maio: 135 anos de abolição na Manaus preta e índia

Imagens do acervo da pesquisadora Patrícia Melo mostram a vida da população negra em Manaus. (Imagem: Acervo/Patrícia Melo)

MANAUS – A rua 24 de Maio, no Centro de Manaus, é uma das referências da vida do manauara, mas poucos sabem o motivo da homenagem. A data é uma das mais importantes para o Amazonas porque, neste dia, em 1884, os escravos negros foram libertados no município, dois meses antes da abolição da escravidão no Amazonas, e quatro anos antes da Princesa Isabel assinar a Lei Áurea, em 13 de maio de 1888.

Manaus, no entanto, foi a segunda cidade brasileira a abolir a escravidão. Acarape, no Ceará, deu liberdade aos escravos em 1º de janeiro de 1883 e o Estado do Ceará, foi palco da libertação em 25 de março de 1884. No Amazonas, o presidente da província, Theodureto Carlos de Faria Souto, um cearense, foi quem decretou a abolição.  

Embora seja um dado histórico relevante, há quem tente subestimar a participação dos negros na formação da população do Estado do Amazonas, mas suas raízes estão cada vez mais evidentes. De acordo com a pesquisadora Patrícia Melo Sampaio, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), o Amazonas era a província com o menor número de homens e mulheres escravizados do Império, mas eram importante referência de status social.

De acordo com o Censo em 1872 – o primeiro na história do Brasil –, haviam 979 escravos negros no Amazonas. No Mato Grosso, por exemplo, havia 6,6 mil pessoas escravizadas no mesmo período.

Quatro perguntas para a pesquisadora Patrícia Sampaio:

1.  Quais as rotas adotadas pelos comerciantes de escravos até o Amazonas?

Há muitas rotas possíveis. No século 18, era possível comprar escravos em Belém ou na região no Maranhão, especialmente, durante a atuação da Companhia do Grão-Pará, que foi a responsável pela conexão da Amazônia à rede do tráfico atlântico. Durante o século 19, o tráfico de pessoas começou a ser proibido, o que ocasionou uma mobilidade interna. Os inventários de Manaus mostram que a maioria dos escravos que viviam nesse período em Manaus eram adquiridos na própria região, até mesmo pela conexão entre Manaus e Belém.

Anúncio feito em jornal por proprietário de escravo. (Imagem: Acervo/Patrícia Melo)

2.   Muitos negros chegaram a Manaus em rotas de fuga?

Manaus está a meio caminho da fronteira de países onde não existia escravidão no século 19. Era uma rota muito atrativa. Estudos recentes sobre os possíveis destinos de escravos fugitivos no Amazonas e do Pará dão conta de que a cidade também era um lugar importante a ser considerado. Não dá para esquecer que, em decorrência das fugas, houve a formação de comunidades independentes, as comunidades quilombolas que hoje são uma realidade política no Amazonas.

3.   Mas haviam negros não escravos vindos para o Amazonas?

Haviam deslocamentos voluntários, a exemplo de três professores de música que atuavam no Educandos Artífices no século 19. Foram eles os responsáveis por meninos índios na casa. Homens negros vindos de províncias no Nordeste do Brasil, notadamente Bahia e Pernambuco também chegaram ao Amazonas. Também haviam os africanos libertados quando navios de tráfico humano eram presos na costa brasileira, a maioria oriunda da África Central Atlântica, que, por sua vez, formaram um grupo de 100 pessoas enviadas para o Amazonas.  

4.   Onde residiam?

Só temos notícias de um bairro em particular no século 19 chamado de “Costa da África”, situado nas imediações do cemitério São José. Na virada do século 20, o lugar mais conhecido é a Praça 14 de Janeiro. Embora possa expor essas informações, ressalto que ainda sabemos muito pouco sobre o tema na cidade.

“Local onde atualmente está instalada a Praça da Saudade. (Imagem: Acervo/Patrícia Melo)

“Eu, preta e índia!”

Por Marice Rocha, jornalista.

“Sou aquela mistura resultante da miscigenação entre índios e negros que chamam de cafuza. Ao mesmo tempo me define, mas não me limita. A consciência do que sou, foi e continua sendo um processo de construção. Cresci num lar cheio de oportunidades, em que a educação sempre foi premissa.

A jornalista é neta de índios sateré-mawé, da comunidade de Ponta Alegre, em Paritins. 
(Foto: Acervo pessoal)

Cheguei ao ensino superior em uma universidade pública, em uma época sem cotas. Até o entendimento da importância dessas políticas públicas, foi um processo de desconstrução do conceito de meritocracia. Minha história é apenas um recorte e não serve como verdade absoluta da realidade da maioria dos negros e indígenas do Brasil. E quando digo que só a educação pode mudar o mundo e que é direito tudo, afirmo a importância de todas as transformações e lutas dos meus pelo acesso a esse conhecimento.

Ser preta e índia num país em que mais mata negros e que subjuga os direitos dos indígenas, pode dar medo, mas me dá cada vez mais convicção que representatividade importa. Como disse Darcy Ribeiro, ‘só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca’. E eu também não!”

Fonte: amazonasatual.com.br