Afoxé é resistência contra o racismo, Maracatu vai além da religião

Afoxé Omô Nilê Ogunjá Foto: Arthur de Souza

Vestimentas, músicas e envolvimento com a comunidade são algumas das formas de expressar a cultura negra e manter suas origens vivas e pulsantes

Por: Paulo Trigueiro / folhape.com.br

Carnaval não é só brincadeira. Para as minorias, as ruas durante o período momesco podem se transformar num campo de resistência. Questões políticas culturaissurgem lado a lado e formam uma tessitura de luta lazer, em que é difícil definir quando uma começa e a outra termina.

Movimento Negro (MN) é, talvez o melhor exemplo. Foi a partir dele que surgiram os Afoxés pernambucanos, no fim dos anos 1970. Eles aparecem a partir da rearticulação do MNno bojo da redemocratização do País, e aparecem como uma forma antirracista de folia.

“A cultura ali não foi apenas um elemento decorativo para fins políticos. Os elementos culturais e políticos organizavam a luta contra o racismo, entendida como uma guerra com diferentes trincheiras. Foi assim que a política em alguns momentos foi atuar no Maracatu Leão Coroado, fundar e participar de afoxés e bandas afro, criar grife de moda, denunciar a falácia do mito da democracia em todos os espaços”, explicou a historiadora Martha Rosa, que estudou o assunto no doutorado realizado na Universidade de Brasília (UnB).

Em sua pesquisa, mostra que a criação de Afoxés é a concretização da crença do MN em um papel transformador da cultura. “Portanto, ele surge no Recife como uma prática discursiva do MN no campo da cultura, mais ainda na cena carnavalesca, no sentido de expressar as desigualdades raciais na sociedade brasileira, inclusive no período momesco.”

Nomes como Zumbi Bahia e o Balé Primitivo de Arte NegraUbiracy Ferreira e o Balé de Cultura Negra do Recife (Bacnaré), as tias do Terço e a noite dos tambores silenciosos já dinamizavam a cena cultural negra recifense e foram fundamentais para a construção e recepção da proposta de criação dos primeiros afoxés. Ela cita uma música do Ilê de África, primeiro afoxé do Recife: “Eu esse ano vou sair de afoxé. Eu vou para rua mostrar o valor que o preto tem. Cabelo trançado e roupa africana. Argola na orelha tudo bem. Minha preta dançando. Cantando em nagô, para você entender.”

Do começo dos anos 1980 com a criação do Ilê de África, o primeiro afoxé, até os dias atuais, pouco mudou em relação à força política desse tipo de grupo. Rivaldo Pessoa viveu a época e é o sócio número 001 do Afoxé Alafin Oyó, de 1985, o quarto afoxé a ser criado em Pernambuco segundo o doutorado de Martha. “Não há uma visão de um folcore sem consciência. Sabemos que o Estado é racista e que somos tão importantes quanto o outro lado. Então, no afoxé, nós gritamos esse nosso valor”, conta Pessoa.

Segundo Rivaldo Pessoa, o culto aos orixás é a principal forma de expressar politicamente a cultura negra. “É assim porque há uma parcela da sociedade que marginaliza nossa religião. Diz que é coisa do diabo ou do inferno. Quando na verdade estamos cultuando a natureza. Fazem isso para quebrar a nossa autoestima. O afoxé briga diretamente contra isso.” O Alafin Oyó ensaia todo segundo sábado do mês em frente ao antigo Xinxim da Baiana, na praça do Carmo, em Olinda. No Carnaval, sai do Palácio de Iemanjá, no Alto da Sé, às 19h.

Mesmo para Rivaldo, o afoxé mais politicamente consciente é o do mestre Dario Junior, o Omô Nilê Ogunjá. Para Dario, o afoxé se expressa de três maneiras: pelas vestimentas, pelas músicas e pelo envolvimento com a comunidade. “O candomblé é nosso espaço de resistência luta”, comentou. “É o lugar onde ocorrem encontros pessoais, mas também com nossos ancestrais. E onde se renasce quando se descobre negro e se percebe como a sociedade nos vê. Descobrimos juntos a nossa força e como lidar com essa sociedade”, finaliza. O Omô Nilê Ogunjá ensaia todo domingo na Praça do Arsenal, no bairro do Recife, Centro da Cidade, às 17h. A saída oficial ocorrerá esse ano no dia 26 de fevereiro, num percurso que vai da Praça onde ensaiam até o Marco Zero do Recife.

Maracatu Nação é seguimento da religião

A relação entre os maracatus e as religiões de matrizes africanas se estreitou muito no início do século passado, de acordo com a pós-doutora em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Isabel Guillen. “Houve uma perseguição muito forte às casas de orixás catimbó naquela época. Mas os maracatus tinham permissão da sociedade e da polícia para sair, tocar, desfilar. O que aconteceu foi que pais de santos pediam a permissão para o maracatu e tocavam para os orixás, realizavam seus rituais”, explicou a professora.

Quando a polícia intervinha nos rituais, o candomblecista afirmava estar tocando “apenas” maracatu, e que tinha a licença para isso. Essa artimanha é muito repassada pela tradição oral no Recife. Guillen, contudo, conseguiu evidências de que ela é verdadeira, a partir de documentos do Arquivo Público de Pernambuco que mostram pais de santos pedindo a permissão, mas que nunca tiveram um maracatu. “Assim foi construída a relação entre religião e cultura.”

Raminho de OxóssiRaminho de Oxóssi – Crédito: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Para o ogã responsável pela Noite dos Tambores SilenciososPaulo Sérgio, todo maracatu de nação é a continuação, o seguimento religioso de uma casa de religião de matriz africana. “Surge dentro delas, como a maioria das expressões negras. O coco, por exemplo, surgiu nos fins de festa de candomblé, quando as pessoas tocavam samba e este samba foi se modificando até se tornar um coco de resposta, aquele com métrica rápida, com versos curtos”, explica.

Noite, realizada na segunda-feira de Carnaval desde 1968 no Pátio do Terço, é quando os maracatus nação se encontram para reverenciar os tambores dos antepassados. “Os maracatuschegam até o Pátio do Terço tocando, trazendo suas calungas e seus aparatos religiosos. À meia-noite, os tambores silenciam, assim como as luzes se apagam, também. O babalorixá da casa Roça de Oxum Opará e Oxóssi IbualamaRaminho de Oxóssi, faz uma cerimônia em reverência aos eguns, que são os nossos ancestrais”, detalha. São cânticos da nação Oyá, em adoração a Iansã e às tias do Pátio do TerçoSinhá, Iaiá e Badia, símbolos da identidade negra no Recife. “No final do ritual, pombas brancas são soltas.”

As calungas citadas por Paulo Sérgio são como bonecas, que representam as madrinhas dos maracatus e toda a sua ancestralidade. Para se ter uma ideia, é preciso uma preparação para carregá-la. E nem todo mundo pode. Resguardo de álcool, sexo e cigarro é obrigatório. Só mulheresiniciadas na religião estão aptas. “É algo muito forte. Traz toda a nossa religião que foi aprisionada quando não podíamos expressá-la.”