Joaquim Nabuco: Patrono da abolição

A igualdade, que tanto acreditava Nabuco ainda é um desafio a se vencer no Brasil

 

VICENTE VUOLO

Ao longo desses anos, tenho defendido uma pauta de assuntos pertinentes à transformação de consciências, ao respeito à dignidade humana, aos valores de justiça e liberdade. Isso envolve o que considero educação política.

E quando se tem educação política, a palavra de ordem é a defesa de causas, projetos de Estado, onde a próxima geração é sempre beneficiada.

Uma referência ímpar nessa ordem de pensamento é o grande estadista Joaquim Nabuco. Uma das figuras mais importantes para o fim da escravidão em nosso país. Nas suas palavras e ações haviam uma congruência de ideias: “sou um homem de uma só ideia, mas não me envergonho dessa estreiteza mental porque essa ideia é o centro e a circunferência do progresso brasileiro”.

Nabuco marca o início do sentimento abolicionista após a Independência do Brasil, a partir de uma certa inquietação diante do fato de grande parte da população permanecer em clausura pessoal após o país conquistar a liberdade.

Apesar de ser um defensor intransigente de uma imediata liberação em massa de todos os escravos, Nabuco tinha uma preocupação com o futuro, no sentido de livrar os escravos do “despotismo, da superstição e da ignorância”. Isto seria então o abolicionismo, pois não há democracia sem a liberdade de todos.

Diferentemente dos Estados Unidos, onde a abolição ocorreu por via da guerra civil, não havia no Brasil um ódio entre senhores e escravos, pretos e brancos, e a liberdade aconteceu por leis aprovadas no parlamento. O abolicionismo foi um projeto político de construção do país e da identidade nacional na comunhão de todas as raças que o integram.

Nascido na elite do Império e dotado de sólida formação europeia, Nabuco foi orador dos mais apreciados do Império, diplomata e político de grande prestígio. Como estilista literário, desenvolveu padrões de rara elegância. Escreveu prodigiosos livros destacando-se “Um Estadista no Império (biografia de seu pai, senador do Império) e “Minha Formação” (em que narra o percurso próprio). Faleceu em Washington, em 1910, como embaixador brasileiro, posto que antes já exercera em Londres.

Em sua obra autobiografia intitulada “Minha Formação”, Joaquim Nabuco descreve suas impressões após retornar ao Engenho, anos mais tarde: “ O traço todo da vida é para muitos um desenho da criança esquecido pelo homem, e ao qual este terá sempre de se cingir sem o saber…Pela minha parte, acredito não ter nunca transposto o limite das minhas quatro ou cinco primeiras impressões. Os primeiros oito anos da vida foram assim, em certo sentido, os de minha formação instintiva, ou moral, definitiva…. Passei esse período inicial, tão remoto e tão presente, em um engenho de Pernambuco, minha província natal!

A terra era uma das mais vastas e pitorescas da zona do Cabo…. Nunca se me retira da vista esse pano de fundo da minha primeira existência… A população do pequeno domínio, inteiramente fechado a qualquer ingerência de fora, como todos os outros feudos da escravidão, compunha-se de escravos, distribuídos pelos compartimentos da senzala, o grande pombal negro ao lado da casa de morada, e de rendeiros, ligados ao proprietário pelo benefício da casa de barro, que os agasalhava, ou da pequena cultura que lhes consentia em suas terras”.

Nabuco defendia que os escravos, assim que libertos, deveriam ter acesso a terras, ao trabalho digno e, principalmente, à educação. Acreditava que o Brasil poderia ser um país rico, democrático e próspero.

Seu sonho não se realizou. Os escravos foram libertos em condições que os impediram de ter acesso às condições que lhes possibilitassem viver com dignidade. Ainda hoje há diferenças gritantes no tratamento, nas condições de acesso a oportunidades de educação e trabalho. Os salários dos negros e pardos são inferiores aos dos brancos e ainda sofrem discriminação. Calcula-se que se poderá alcançar certa igualdade de renda somente em 2089, conforme o relatório “A Distância Que Nos Une”, que a organização não governamental Oxfam Brasil divulgou em maio deste ano.

A igualdade de oportunidades é um dos pilares da democracia liberal, que tanto acreditava Joaquim Nabuco. Um desafio a se vencer ainda no Brasil, essa nossa terra multicolorida e formada por etnias e povos das mais diversas origens. Nossa riqueza também está na formação de nossa gente, não somente no solo e nas dádivas da natureza.

Fonte: http://www.midianews.com.br/