Se por muito tempo a cobrança por direito de fala da população negra era travada dentro da esfera pública, chegou a hora do mercado ouvir as demandas do público que soma 54% dos brasileiros. Segundo o Instituto Locomotiva, 82% das pessoas pretas não se sentem ouvidas pelas marcas, movimento que cresce à medida que a cultura afro ganha protagonismo na sociedade.

Os dados são da pesquisa “A Voz e a Vez -Diversidade no Mercado de Consumo e Empreendedorismo” e, segundo o presidente do Instituto Locomotiva, Renato Meirelles, os negros não devem ser tradados como “nicho de mercado”, se são a “maioria da população”. “As empresas têm que entender que essas pessoas não são a exceção, elas são a regra.”

Para o antropólogo e sociólogo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Pedro Jaime, a população preta brasileira cresceu não por demografia, mas pela identificação com a raça graças ao sucesso de movimentos e lideranças. “As pessoas hoje têm orgulho da cor da pele delas, elas lutam para serem ouvidas e as reinvindicações que antes eram para o Estado se voltaram também para o mundo empresarial”, analisa o professor ao DCI.

Assim como houve exigência por políticas públicas, as lideranças afrodescendentes passaram a solicitar políticas empresariais que incluíssem o negro em campanhas publicitárias e produtos com categoria “cor de pele”, por exemplo. “Os negros começam a se incomodar em não se verem nas propagandas de produtos comuns que eles consomem assim como as pessoas brancas.”

Reivindicando espaço nas esferas públicas e privadas, uma das formas de punição às companhias insistentes em ignorar a tendência de inclusão é o boicote por meio, principalmente, da internet. “Os jovens viralizam tudo online, e da mesma forma que é fácil bombar algo é fácil se comprometer também”, declara.

Diverso e inclusivoComo solução, as empresas e agências de publicidade têm a necessidade de se adaptar à diversidade, contratando profissionais que representem os consumidores. “A única forma de resolver isso de uma maneira estrutural é colocar negros para ocupar espaço de poder nas agências e nas empresas”, complementa Meirelles.

Além de campanhas, pensar em produtos é complementar, mas deve-se haver cautela nas duas esferas para não haver resultado contrário. Ambos os especialistas concordam que alguns produtos devem ser adaptados às especificidades negras, mas outros itens universais precisam apenas de representação em comerciais para não impor segregação. “Somente em casos em que há diferenças biológicas entre raças é preciso de produtos específicos para este público, caso contrário não há necessidade”, pontua Jaime.

Como solução, as empresas devem ouvir e levar a sério resultados de pesquisas como a do Instituto Locomotiva em parceria com a Feira Preta. Além disso, a descoberta de práticas de gestão coerentes, campanhas e produtos inclusivos deve ser feita por meio da criação de fóruns, participação de debates e seminários, patrocínio de eventos da comunidade afrodescendente, pesquisas e criação de estratégias para descobrir as demandas.

Entretanto, ao dirigir essas estratégias, deve-se haver cautela para desprender-se de estereótipos. “Não deve-se colocar o negro somente como o pedreiro ou a empregada”, alerta Meirelles. Jaime completa mencionando que mesmo os funcionários brancos devem ter, no mínimo, contato com a comunidade negra para evitar alienação de estratégias.

Para estimular o protagonismo negro e servir de exemplo para empresas tradicionais, o clube de assinaturas Clube da Preta, inaugurado há um ano, oferece produtos para este público. “As empresas têm que olhar mais para essa população. É isso que nós queremos”, explica o CEO e fundador, Bruno Brigida. “Enquanto as companhias não entenderem que o insititucional do negro não é ser branco, elas não vão atingir esse público”, finaliza.

Fonte: dci.com.br